segunda-feira, 21 de maio de 2012

LAODICEIA, UMA IGREJA MORNA.


A Fundação da Igreja em Laodiceia

Laodiceia recebeu este nome em 250 a.C, após ser conquistada pelo governador sírio, Antíoco II, em homenagem a sua esposa Laodice. Em 133 a.C. os romanos fizeram da cidade um centro judicial e administrativo, investindo também em sua infra-estrutura, cooperando dessa forma para que se transformasse num rico centro comercial. Suas atividades econômicas envolviam a industria de lã negra, o manufaturamento de vestimentas comuns e caras, e a invenção e produção de um colírio eficaz para os olhos.[1] Essas atividades, e a riqueza material delas advindas será utilizada por Jesus como metáfora para descrever a real condição espiritual da igreja em Laodiceia.

Uma característica bem peculiar da cidade, que será também citada metaforicamente por Jesus, era a qualidade de sua água. A cidade era abastecida pela água que vinha de Heliópolis, que ficava a uma distância de aproximadamente dez kilômetros, que chegava em Laodiceia morna e saturada com carbonato de cálcio, onde bebida naquelas condições induzia ao vômito.[2]

O templo para o culto ao imperador ocupava um lugar central na cidade.[3]

Assim como no caso de Éfeso, Esmirna, Pérgamo, Tiatira, Sardes e Filadélfia, o Evangelho pode ter chegado em Laodiceia através da obra missionária de Paulo (At 19.10), mas não devemos descartar a hipótese de que testemunhas e convertidos no dia de Pentecostes poderiam ter sido os primeiros a levar o Evangelho para aquela região (At 2.5-11).

A Condição da Igreja em Laodiceia

Conheço as tuas obras, que nem és frio nem quente. Quem dera fosses frio ou quente! Assim, porque és morno e nem és quente nem frio, estou a ponto de vomitar-te da minha boca; (Ap 3.15-16)

A condição espiritual da igreja em Laodiceia se assemelhava com a mornidão da água da cidade. Laodiceia vivia um modelo de cristianismo tão apático, que as suas obras não eram sequer dignas de serem mencionadas. Pregação, ensino, evangelização, discipulado e outras realizações parecem não fazer parte da agenda da igreja em Laodiceia. É nesse ponto que encontramos na carta o primeiro sinal da manifestação da graça de Jesus operando em favor dos crentes laodicenses. Ele declara: “estou a ponto de vomitar-te da minha boca”. O tempo verbal no grego implica uma ação ainda não executada, ou seja, apesar da condição da igreja, a graça de Jesus estava dando aos crentes em Laodiceia tempo para se arrependerem após a leitura da carta.[4] Muitas igrejas locais ao longo da história já foram vomitadas pelo Senhor, por desprezarem ou abusarem da graça, que sempre precede o juízo de Deus.

[...] pois dizes: Estou rico e abastado e não preciso de coisa alguma, e nem sabes que tu és infeliz, sim, miserável, pobre, cego e nu. (Ap 3.17)

Os comentaristas estão divididos se a declaração de Jesus aqui diz respeito a um sentimento de auto-suficiência espiritual ou material da igreja em Laodiceia. Na realidade, os dois tipos de sentimento são perniciosos. Nossa Assembleia de Deus, assim como qualquer outra denominação evangélica, precisa estar alerta para esse tipo de postura.

Nenhuma igreja pode se vangloriar do poder do Espírito e dos dons que nela opera, do capital teológico e cultural que possui, de sua riqueza musical, nem de qualquer outra riqueza espiritual. O que temos e somos, temos e somos pela graça de Jesus.

E o que falar das coisas materiais? Mas uma vez temos aqui um alerta contra os perigos das ideias fomentadas pela Teologia da Prosperidade e da Vitória Financeira. Ser rico não é pecado (nem ser pobre também), mas implica em muitos perigos:

Ora, os que querem ficar ricos caem em tentação, e cilada, e em muitas concupiscências insensatas e perniciosas, as quais afogam os homens na ruína e perdição. Porque o amor do dinheiro é raiz de todos os males; e alguns, nessa cobiça, se desviaram da fé e a si mesmos se atormentaram com muitas dores. [...] Exorta aos ricos do presente século que não sejam orgulhosos, nem depositem a sua esperança na instabilidade da riqueza, mas em Deus, que tudo nos proporciona ricamente para nosso aprazimento; que pratiquem o bem, sejam ricos de boas obras, generosos em dar e prontos a repartir; que acumulem para si mesmos tesouros, sólido fundamento para o futuro, a fim de se apoderarem da verdadeira vida. (1 Tm 6.9, 10, 17-19)

A prosperidade espiritual, ministerial, financeira e material, quando graciosamente, e não barganhosamente adquirida, não deve alimentar nossas loucas concupiscências, nem fortalecer nenhum sentimento de orgulho e auto-suficiência. A igreja em Laodiceia não apenas vivenciava, mas também verbalizava a sua aparentemente rica, mas na realidade infeliz, pobre e miserável condição.

A igreja em Laodiceia foi vitimada também pelo auto-engano, tendo uma visão equivocada de si mesma. A igreja em Laodiceia estava cega ao ponto de não perceber a sua nudez espiritual. Uma coisa é aquilo que pensamos de nós mesmos, e outra é o que Deus pensa e diz sobre nós. Precisamos nos ver como Deus nos vê. Precisamos nos perceber como Deus nos percebe. Foi percebendo tal necessidade, e se achando incapaz de ter uma visão real de sua própria condição, que o salmista orou ao Senhor:

Sonda-me, ó Deus, e conhece o meu coração, prova-me e conhece os meus pensamentos; vê se há em mim algum caminho mau e guia-me pelo caminho eterno. (Sm 139.23-24)

Oremos ao Senhor, para que Ele comunique à nossa consciência o nosso real estado espiritual, para que assim possamos ser poupados do vômito divino.

Aconselho-te que de mim compres ouro refinado pelo fogo para te enriqueceres, vestiduras brancas para te vestires, a fim de que não seja manifesta a vergonha da tua nudez, e colírio para ungires os olhos, a fim de que vejas. (Ap 3.18)

Mas uma vez temos aqui a graça de Jesus agindo em favor da igreja. O texto se equipara ao que encontramos em Isaías 55.1:[5]

Ah! Todos vós, os que tendes sede, vinde às águas; e vós, os que não tendes dinheiro, vinde, comprai e comei; sim, vinde e comprai, sem dinheiro e sem preço, vinho e leite.

Como podemos comprar alguma coisa do Senhor? Somente através da graça é possível obter dele ouro refinado, vestiduras brancas e colírio. A fala de Jesus assume o tom de um amável conselho.

Eu repreendo e disciplino a quantos amo. Sê, pois, zeloso e arrepende-te. (Ap 3.19)

O amor de Jesus não implica numa tolerância conivente. Quando se faz necessário ele nos disciplina, e faz isso ainda em amor (Hb 12.5-11). Os crentes em Laodiceia tinham abandonado o zelo pelas coisas do Senhor. O termo grego zelos em sentido figurado positivo(Jo 2.17; Rm 10.2; 1 Co 14.1; 2 Co 7.7,11; 11.2; Cl 4.13) implica em ardor, cuidado, fervor, características que deveriam ser buscadas pela igreja.

A necessidade de arrependimento é aqui também declarada. O arrependimento que possibilita novamente o perdão e aceitação de Deus é mais do que simples verbalização de frases prontas e impressionistas. O termo grego para “arrependimento” é metanoeo,que implica em mudança de pensamento ou mentalidade que resulta em mudança de sentimentos e atitudes. É uma mudança plena de uma condição que desagrada a Deus, para uma outra condição que o alegra. Arrependimento é tristeza diante do pecado, e não simples remorso (2 Co 7.10).

Eis que estou à porta e bato; se alguém ouvir a minha voz e abrir a porta, entrarei em sua casa e cearei com ele, e ele, comigo. (Ap 3.20)

Que imagem forte. O Senhor da igreja, que pela altivez e orgulho dos crentes fora dela excluído, graciosamente e pacientemente bate à sua porta buscando oportunidade de cear, comungar e celebrar. Em congregações, lares e vidas, o quadro se repete na atualidade.

Que o alerta e a promessa de Jesus aos crentes laodicenses possa reverberar e encontrar guarida em vidas auto-suficientes, apáticas, indolentes e mornas:

Ao vencedor, dar-lhe-ei sentar-se comigo no meu trono, assim como também eu venci e me sentei com meu Pai no seu trono. Quem tem ouvidos, ouça o que o Espírito diz às igrejas. (Ap 3.21-22).


[1] KISTEMAKER, Simon. Apocalipse. São Paulo: Cultura Cristã, 2004, p. 223.

[2] Ibid., 224.

[3] Ibid.

[4] Ibid., 227.

[5] Ibid., p. 230.

segunda-feira, 14 de maio de 2012

FILADÉLFIA, A IGREJA DO AMOR PERFEITO


A Fundação da Igreja em Filadélfia

Filadélfia foi fundada em 140 a.C. por Átalo II. Em homenagem a seu irmão Eumenes, e por seu amor fraterno a ele, a cidade chamou-se Filadélfia. Com um solo extremamente fértil, a cidade tornou-se conhecida por seus vinhos e bebidas refrigerantes. Um templo foi erguido entre 69 e 70 d.C. em homenagem e para culto ao imperador Vespasiano.[1] O ponto forte de Filadélfia era a sua localização estratégica, o que a tornou rota obrigatória do correio imperial nas comunicações entre o ocidente e o oriente.[2]

Assim como em Éfeso, Esmirna, Pérgamo, Tiatira e Sardes, o Evangelho pode ter chegado naquela cidade através da obra missionária de Paulo (At 19.10), mas não devemos descartar a hipótese de que testemunhas e convertidos no dia de Pentecostes poderiam ter sido os primeiros a levar o Evangelho para aquela região (At 2.5-11).

A Condição da Igreja em Filadélfia

Ao anjo da igreja em Filadélfia escreve: Estas coisas diz o santo, o verdadeiro, aquele que tem a chave de Davi, que abre, e ninguém fechará, e que fecha, e ninguém abrirá: (Ap 3.7)

Em sua apresentação à igreja em Filadélfia, o Senhor Jesus destaca três de seus atributos: santidade, verdade e autoridade soberana. Na condição de santo: “Ele é absolutamente separado de todas as Suas criaturas e exaltado sobre elas, e que Ele é igualmente separado da iniqüidade moral e do pecado”.[3] Como verdade, o conhecimento, declarações e representações do Cristo Deus se conformam eternamente com a realidade.[4] Ele é aquele de plena integridade, confiabilidade e fidelidade.[5] Em sua autoridade soberana, Ele governa sobre tudo e sobre todos, e ninguém pode lhe impor limites. Ele realiza sua vontade no céu e na terra (Mt 28.18) sem impedimento algum (Ef 1.11; Rm 11.36).[6] Por isso, Ele abre e ninguém fechará, e fecha e ninguém abrirá.

Conheço as tuas obras — eis que tenho posto diante de ti uma porta aberta, a qual ninguém pode fechar — que tens pouca força, entretanto, guardaste a minha palavra e não negaste o meu nome. (Ap 3.8)

Junto com Esmirna, Filadélfia não é repreendida pelo Senhor. São muitas as indicações da forte influência da igreja em Filadélfia através dos séculos, mesmo quando o islamismo tornou-se a religião dominante naquela região. Na primeira metade do século 20, cinco congregações cristãs ainda floresciam em Filadélfia.[7]

Há praticamente consenso entre os estudiosos das Escrituras de que a “porta aberta” citada na carta se relaciona com onde Filadélfia estava estabelecida, o que facilitava a pregação do Evangelho (1 Co 16.9; 2 Co 2.12; Cl 4.3). Dessa forma, através da igreja em Filadélfia, o Evangelho era livremente e ativamente pregado e ensinado.

No caso da “pouca força” da igreja, alguns comentaristas atribuem o fato ao número pequeno de crentes na cidade[8], enquanto que outros afirmam a carência de poder espiritual, em comparação com o Pentecoste.[9] Há ainda os que alegam a ausência de riquezas materiais, pujança teológica e de celebridades.[10] Independente do significado de “pouca força”, na graça de Jesus a igreja permaneceu fiel ante a oposição dos da sinagoga de Satanás (Ap 3.9), a quem o Senhor promete fazer vir e curvar-se diante deles, levando-os a admitir o amor de Jesus por sua igreja.

Lições que Aprendermos com a Igreja em Filadélfia

A igreja em Filadélfia nos ensina grandes lições e nos deixa belos exemplos.

Em primeiro lugar, é necessário continuar aproveitando a liberdade de pregação do Evangelho em terras nacionais, mas sem se descuidar com as missões transnacionais. O brasileiro é privilegiado com a pluralidade de seu estereotipo, o que facilita a sua infiltração em qualquer nação e povos no mundo. Infelizmente, a pregação do Evangelho vem se enfraquecendo, e os recursos que deveriam ser investido em missões e nos missionários são gastos com luxo, superfluidade denominacional e e pessoal por parte de algumas lideranças. Em muitos lugares se pratica uma falsa generosidade, onde o líder da igreja vive com um altíssimo salário (além de outros privilégios), enquanto seus auxiliares, na grande maioria, ganham pouco mais do que o mínimo. Quando reclamam, escutam que precisam aprender a viver pela fé, enquanto o próprio líder não vivencia esse tipo de fé. Será que esses líderes passariam hoje na prova do jovem rico, aqui adaptada?

Disse-lhe Jesus (ao presidente): Se queres ser perfeito, vai, vende os teus bens, dá aos pastores e obreiros auxiliares e terás um tesouro no céu; depois, vem e segue-me. Tendo, porém, o presidente ouvido esta palavra, retirou-se triste, por ser dono de muitas propriedades. (Adaptado de Mt 19.21-22)

Não me refiro aqui a ninguém especificamente, e o Senhor é minha testemunha. Nem estou afirmando que todo “presidente de igreja” é rico, avarento e injusto. Conheço muitos que vivem dignamente, em justiça, e em generosidade o Evangelho de Jesus. Falo apenas de circunstâncias e fatos da vida evangélica real. Alguém certa vez me disse que eu deixaria de ser convidado por algumas igrejas por causa de minhas colocações. Penso que enquanto houver pastores sérios e tementes a Deus à frente de igrejas, o Senhor continuará a me “abrir portas” através de seus servos fiéis. Creio naquele me chamou, e que me achou digno para o santo ministério. Não posso recuar diante daquilo para o qual fui designado. Para isso, conto com a graça de Jesus, com o poder do Espírito e com as orações dos santos.

Se Jesus não era mais rico do que os apóstolos, e se os apóstolos não foram mais ricos do que os bispos e presbíteros, se os bispos e presbíteros não foram mais ricos que os diáconos, e se a liderança da igreja de forma geral não era necessariamente mais rica que os membros, de onde vem a ideia de que quanto maior o cargo na igreja, mais dinheiro e posses se deve ter? Pura mentalidade capitalista selvagem. Prego aqui algum tipo de socialismo ou comunismo cristão? Não, antes, na atual conjuntura, falo de encurtar as distâncias econômicas entre obreiros, e entre obreiros e igreja.

Em segundo lugar, as portas para a pregação do Evangelho não são abertas por fórmulas mágicas ou estratégias mirabolantes de evangelização ou crescimento de igreja. Deus coopera com o homem (1 Co 3.9) na pregação do Evangelho, mas todo raciocínio e lógica humana precisam estar submissos a sua soberana vontade e direção (At At 13.1-3; 16.6-10).

Em terceiro lugar, a força espiritual de uma igreja não está no tamanho dela, na opulência dos seus templos, na influência social de seus membros, no dinheiro guardado em caixa, nem no seu patrimônio histórico, material e cultural. A força espiritual de uma igreja não pode ser aferida somente pelas manifestações dos dons espirituais, das línguas, das profecias, dos milagres, das curas, etc. A força e a autoridade espiritual de uma igreja local se relacionam diretamente com a sua obediência incondicional ao seu Senhor. Diante desta autoridade, não há sinagoga de Satanás que possa prevalecer.

Termino como nas demais cartas, citando as promessas de Jesus à igreja em Filadélfia, que podem se manter, ou se tornar nossas também:

Porque guardaste a palavra da minha perseverança, também eu te guardarei da hora da provação que há de vir sobre o mundo inteiro, para experimentar os que habitam sobre a terra. Venho sem demora. Conserva o que tens, para que ninguém tome a tua coroa. Ao vencedor, fá-lo-ei coluna no santuário do meu Deus, e daí jamais sairá; gravarei também sobre ele o nome do meu Deus, o nome da cidade do meu Deus, a nova Jerusalém que desce do céu, vinda da parte do meu Deus, e o meu novo nome. Quem tem ouvidos, ouça o que o Espírito diz às igrejas. (Ap 3.11-13)


[1] KISTEMAKER, Simon. Apocalipse. São Paulo: Cultura Cristã, 2004, p. 208.

[2] ANDRADE, Claudionor. Os sete Castiçais de Ouro: a mensagem final de Cristo à Igreja. Rio de Janeiro: CPAD, 2012, p. 114.

[3] THIESSEN, Henry Clarence. Palestras introdutórias à Teologia Sistemática. São Paulo: IBRB, 1987, p. 81.

[4] Ibid., p. 84.

[5] WILLIAMS, J. Rodman. Teologia Sistemática: uma perspectiva pentecostal. São Paulo: Vida, 2011., p. 58.

[6] HODGE, Charles. Teologia Sistemática. São Paulo: HAGNOS, 2001, p. 332

[7] KISTEMAKER . Ibid., p. 209.

[8] Ibid., p. 211.

[9] SILVA, Severino Pedro. Apocalipse versículo por versículo. 11 ed. São Paulo: CPAD, 1985, p. 55.

[10] ANDRADE, Claudionor. Ibid., p. 118.

quarta-feira, 9 de maio de 2012

SARDES, A IGREJA MORTA. Subsídio para Lição Bíblica - 2º Trimestre/2012

A Fundação da Igreja em Sardes

Edificada sobre um promontório a 500 metros acima do nível do mar, quase inconquistável, Sardes teve um passado de glória, chegando a ser capital do reino de Lídia, e sinônimo de prosperidade e sucesso. Era uma grande fabricante de roupas de lã, próspera em comércio de produtos oriundos da agricultura. Em Sardes a deusa Ártemis era cultuada.

Assim como em Éfeso, Esmirna, Pérgamo e Tiatira, o Evangelho pode ter chegado naquela cidade através da obra missionária de Paulo (At 19.10), mas não devemos descartar a hipótese de que testemunhas e convertidos no dia de Pentecostes poderiam ter sido os primeiros a levar o Evangelho para aquela região (At 2.5-11).

A Condição da Igreja em Sardes

Ao anjo da igreja em Sardes escreve: Estas coisas diz aquele que tem os sete Espíritos de Deus e as sete estrelas: Conheço as tuas obras, que tens nome de que vives e estás morto. (Ap 3.1)

Em sua apresentação nesta carta, Jesus se revela de duas maneiras:

- Aquele que tem os sete espíritos. A expressão “sete espíritos” descreve a plenitude do Espírito Santo que é único. Não é por acaso que a plenitude do Espírito é aqui destacada. É o Espírito Santo quem dá plena vitalidade a uma igreja local. No Novo Testamento vemos o Espírito Santo atuando na igreja de várias formas, dentre as quais: Revestindo de poder (At 1.8; 2.1-4; 4.31), trasladando sobrenaturalmente (At 8.39-40), orientando na separação de obreiros (At 13.1-3), participando das decisões conciliares (At 15.28-29), direcionado as missões (At 16.6-10), distribuindo dons à igreja (1 Co 12.11). Ao mudar de atitude em relação ao Espírito, uma igreja local pode iniciar um processo de morte. Os passos para isso são geralmente os seguintes: Resistir ao Espírito (At 7.51), entristecer ao Espírito (Ef 4.30), extinguir /apagar o Espírito (1 Ts 5.19), blasfemar contra o Espírito (Mt 12.31-32).

- Aquele que tem as sete estrelas. Da mesma forma que no caso dos sete espíritos, as sete estrelas falam da plenitude do senhorio de Cristo sobre a sua Igreja. Ele é o Senhor absoluto sobre ela. A Igreja tem dono, e pode ter certeza que não é nenhum pastor ou líder nacional, regional ou local. Jesus não tem sócios na Igreja.Apesar de muitos na atualidade agirem como se fossem donos da Igreja de Jesus, na realidade, se portam (ou são) como donos das instituições religiosas por eles fundadas, herdadas ou dirigidas (igrejas locais). Essa postura inclui: Colocar o patrimônio físico da igreja (instituição) em seu nome, ou em nome de familiares e parentes, beneficiar-se financeiramente de forma absurda e escandalosa da igreja (instituição), além de beneficiar familiares, parentes e amigos, estabelecer o filho ou algum parente como sucessor, para assim manter os privilégios (afirmo que não há nada de errado quando os filhos ou parentes são devidamente qualificados para as funções ou divinamente vocacionados para o santo ministério, e quando não há interesse na manutenção de privilégios), ditar as normas, as regras, os costumes e a tradição da igreja (instituição), ameaçar aqueles que discordam de seus posicionamentos com cortes de salários, demissões, mudanças para campos, congregações ou trabalhos menores ou mais difíceis, perda de cargos e funções em mesas diretoras, supressão de oportunidades para ensino e pregação, etc. Os donos das igrejas (instituições) estão em toda parte, deitando e rolando, fazendo e acontecendo, se achando poderosos e irremovíveis.

Infelizmente, o quadro de saúde espiritual de Sardes tinha se agravado tanto que a igreja não estava mais em coma, e sim morta. Com cerca de 60 anos de fundação, a igreja chegou ao fundo do poço. Interessante é que a igreja mantinha a sua reputação de viva diante dos homens, mas diante de Deus, que não se engana com reputação, estava morta. Sardes se tornara esteticamente e aparentemente viva, mas espiritualmente e essencialmente morta.

Lições que Aprendermos com a Igreja em Sardes

As Assembleias de Deus no Brasil, assim como a igreja em Sardes, gozam de uma grande reputação nacional. Grandes e majestosos templos, excelentes estruturas, escolas, faculdades, hospitais, abrigos, creches, etc. Tudo isso sinaliza para uma boa condição financeira e econômica. No campo político já consegue espaço com vários representantes no legislativo e executivo. Juízes, promotores, advogados, médicos, engenheiros, administradores e educadores são encontrados entre pastores e membros da igreja. A maior igreja evangélica no Brasil impõe respeito aos de dentro e aos de fora.

Sua história, assim como a história das igrejas da Ásia Menor, foi marcada pelo poder atuante do Espírito, pelo ensino bíblico ortodoxo, pela marcante evangelização, pelo dedicado discipulado, pela fervorosa e sincera adoração, pela maravilhosa comunhão e por outras características e ações de uma igreja genuinamente cristã.

Assim como Sardes, e como qualquer outra igreja que já experimentou grandes momentos em sua história, não podemos de maneira alguma descuidar. Foi por isso que Jesus advertiu a igreja em Sardes com as seguintes palavras: “Sê vigilante e consolida o resto que estava para morrer, porque não tenho achado íntegras as tuas obras na presença do meu Deus”. (Ap 3.2)

É preciso estar atento e aprender com a história. Em 214 a.C, Antíoco o Grande, rei da Síria, enviou seus exércitos contra Sardes. Seus soldados escalaram os muros desprotegidos e capturaram quase que de forma idêntica ao que os guerreiros persas fizeram em 546 a.C. Semelhantemente, a igreja em Sardes não cuidou dos seus “muros”, permitindo que fossem escalados, para ser invadida, dominada e influenciada negativamente, promovendo morte. Não foi assim também com a história mundial da igreja? Já não lemos e testemunhamos em continentes, países, estados, cidades, distritos e bairros de igrejas locais que nasceram, experimentaram a plenitude da vida no Espírito, adoeceram e morreram?

Enquanto denominação evangélica, em que somos melhores que tais igrejas? Sendo assim, se não ficarmos alertas, também morreremos. Já há sinais de morte em vários lugares, mas temos vida do Espírito ainda presente em várias congregações. A ordem é para fortalecer as pessoas e aquilo que de bom ainda há na igreja. Não nos basta ser uma grande igreja, é preciso ser uma igreja de obras perfeitas. Quantidade sem qualidade não tem valor no Reino de Deus.

Lembra-te, pois, do que tens recebido e ouvido, guarda-o e arrepende-te. Porquanto, se não vigiares, virei como ladrão, e não conhecerás de modo algum em que hora virei contra ti. (Ap 3.3)

A ordem para a igreja em Sardes foi “lembra-te” (gr. mnemoneue). No grego o verbo se encontra no modo imperativo, no tempo presente e na voz ativa, ou seja, implica em uma ordem de Jesus que deveria ser cumprida durante todo o tempo pelos crentes em Sardes. A constante lembrança daquilo que recebemos e aprendemos é fator essencial para não entrarmos num processo de morte.

Assim como no caso de Éfeso, o arrependimento é também exigido. O arrependimento que possibilita novamente o perdão e aceitação de Deus é mais do que simples verbalização de frases prontas e impressionistas. O termo grego para “arrependimento” aqui se deriva de metanoeo, que implica em mudança de pensamento ou mentalidade que resulta em mudança de sentimentos e atitudes. É uma mudança plena de uma condição que desagrada a Deus, para uma outra condição de o alegra. Arrependimento é tristeza diante do pecado, e não simples remorso (2 Co 7.10).

Tens, contudo, em Sardes, umas poucas pessoas que não contaminaram as suas vestiduras e andarão de branco junto comigo, pois são dignas. (Ap 3.4)

Como bem colocado por Kistemaker: “Entre as cinzas do fogo se encontram uns poucos tições fumegantes, que com um lufada de vento arderão em chama”.[1]

No grego, lemos literalmente “tens poucos nomes” (echeis oliga onomata), o que implica na ideia de que o Senhor conhece os seus individual e nominalmente (Is 43.1). Esse pequeno grupo de crentes em Sardes não se dobrou diante do secularismo, do pluralismo religioso, nem do relativismo moral vigentes. A pureza e santidade dos tais foram simbolizadas pelas roupas de cor branca. Sim, é possível viver em meio à corrupção espiritual e moral, e mesmo assim manter as vestes limpas e incontaminadas. Tal condição é indispensável para andar, caminhar lado a lado com o Senhor.

Para aqueles que se enquadram no perfil do remanescente fiel da igreja em Sardes, fica a promessa:

O vencedor será assim vestido de vestiduras brancas, e de modo nenhum apagarei o seu nome do Livro da Vida; pelo contrário, confessarei o seu nome diante de meu Pai e diante dos seus anjos. Quem tem ouvidos, ouça o que o Espírito diz às igrejas. (Ap 3.5-6)

quarta-feira, 2 de maio de 2012

TIATIRA, A IGREJA TOLERANTE

A Fundação da Igreja em Tiatira

Situada a sudeste de Pérgamo, num vale espaçoso, Tiatira foi marcada por uma indústria artesanal e um comércio bastante diversificado e próspero, onde estavam presentes padeiros, pintores, curtidores, oleiros, metalúrgicos e trabalhadores têxteis.[1]Este profissionais se organizavam em associações fraternais, semelhantes aos atuais sindicados. Cada associação tinha seu próprio deus, e seus membros participavam de festivais idólatras, que incluíam banquetes oferecidos aos ídolos e orgias sexuais. Não havia em Tiatira grandes templos pagãos, nem a adoração ao imperador constituía grande ameaça.[2]

Quanto a sua fundação e organização, a igreja em Tiatira pode ter sido resultado do testemunho de Lídia (At 16.14), ou alcançada pelo trabalho missionário de Paulo (At 19.10).

A Condição da Igreja em Tiatira

Na carta à igreja em Tiatira o Senhor Jesus se apresenta como aquele que tudo vê e que julga retamente (Ap 2.18).

Diferente de Éfeso, a igreja em Tiatira superou o tempo, conseguindo crescer em obras e amor. Quantidade, qualidade e motivação certa devem caminhar juntas no exercício da diaconia cristã:

Conheço as tuas obras, o teu amor, a tua fé, o teu serviço, a tua perseverança e as tuas últimas obras, mais numerosas do que as primeiras. (Ap 2.19)

Apesar de praticar a caridade, em Tiatira uma falsa profetiza e mestra era tolerada:

Tenho, porém, contra ti o tolerares que essa mulher, Jezabel, que a si mesma se declara profetisa, não somente ensine, mas ainda seduza os meus servos a praticarem a prostituição e a comerem coisas sacrificadas aos ídolos. (Ap 2.20)

Seu ensino e influência promoviam a idolatria e a imoralidade sexual entre os crentes em Tiatira. O grave é que a repreensão do Senhor Jesus sinaliza que não havia uma resistência firme contra as heresias de Jezabel, antes, havia uma perigosa tolerância.

A identificação desta falsa profetiza e mestra com a Jezabel do Antigo Testamento, mulher do rei Acabe, se dá em razão da influência de ambas na proliferação da idolatria e da desobediência a Deus (1 Rs 16.31-33; 21.25; 2 Rs 9.30-37).

Lições que Aprendermos com a Igreja em Tiatira

No Novo Testamento temos a presença de profetisas e mestras atuando na igreja, pois não há acepção de pessoas por gênero, raça, condição social, etc., na concessão dos dons do Espírito (1 Co 12.7-11). Em Efésios 4.11 temos uma lista de dons, e não de cargos eclesiásticos: “E ele mesmo concedeu uns para apóstolos, outros para profetas, outros para evangelistas e outros para pastores e mestres”. Dessa forma, tais dons operam em homens e em mulheres. O que não encontramos no Novo Testamento são as mulheres na condição de "Bispas" ou "Presbíteras" governando, e nesta condição ensinando a igreja. O ofício (bispo ou presbítero) necessita da operação dos dons, mas a operação dos dons não necessita do ofício. Em Atos 2.17 lemos que “vossas filhas profetizarão”. As filhas de Filipe, o evangelista, profetizavam (At 21.8-9). Priscila, ao lado de seu marido Áquila, foi uma grande discipuladora e ensinadora (At 18.26), sem precisar ser ordenada para isso.

Na história da igreja, e mais especificamente das Assembleias de Deus no Brasil, temos notáveis exemplos de mulheres que com excelência realizaram a obra de Deus em através dos dons que o Espírito as concedeu. Observemos alguns exemplos, dentre tantos outros que poderíamos aqui citar:[3]

- Frida Vingren. O trabalho desenvolvido por esta mulher ao lado do esposo Gunnar Vingren envolvia atividades evangelísticas, trabalho social, direção de grupos de oração e visitadoras, direção da Escola Dominical, tocava e cantava hinos e substituía o marido na direção dos cultos quando este se ausentava em visita ao campo ou por causa das enfermidades.[4]

- Emília Costa. Separada por Gunnar vingren para servir como diaconisa em 1925, na Assembleia de Deus em São Cristóvão, Emília Costa foi bastante atuante na evangelização e realização de cultos nas cadeias da cidade. É a única mulher brasileira que aparece na foto oficial da Convenção Geral das Assembleias de Deus de 1933.[5]

- Florência Silva Pereira. O grande trabalho desenvolvido por esta mulher de Deus envolveu a direção e o pastoreio da Assembleia de Deus em Alagoinhas - BA, em 1943, onde construiu um templo. Em 1950, ao chegar a Sergipe, foi enviada pelo pastor Euclides Arlindo para dirigir o campo da Assembleia de Deus em Carmópolis (já tive a oportunidade de pregar nesta cidade), à frente do qual abriu igrejas nos municípios de Maroim, Rosário, Laranjeiras e Santa Rosa de Lima. Quando teve que deixar o trabalho, já havia dois templos, um salão e algumas casas alugadas pela destemida obreira do Senhor.[6]

Infelizmente, nas Assembleias de Deus no Brasil, assim como em outras igrejas, o trabalho da mulher não foi marcado apenas por grandes realizações. Há também exemplos negativos. Da mesma forma que a Jezabel do Antigo Testamento, e da Jezabel do Novo Testamento, há profetisas, mestras e esposas de líderes, que em vez de ajudar, acabam atrapalhando e comprometendo a saúde da igreja e o ministério do seu marido. Jezabel aponta para aquela esposa de líder que manda e desmanda, e cujo marido não tem força para conte-la. No reino onde Jezabel atua, as principais decisões são tomadas por ela. É ela que decide quem vive ou morre, quem fica ou sai, para quem serão distribuídos os cargos, qual programa de governo a ser seguido, a programação dos cultos, os hinos a serem cantados e quem será o pregador da noite ou o preletor do congresso.

Jezabel é também aquela profetiza a quem alguns líderes imaturos recorrem quando precisam tomar alguma decisão na igreja. Jezabel é ainda aquela profetiza e mestra que na base da pseuda revelação profética tentar intimidar os crentes, e dissemina falsos ensinos, que não se sustentam à luz de uma hermenêutica e exegese sadia, e da iluminação do Espírito.

O trabalho da mulher na igreja deve ser valorizado na medida em que se fundamenta na Palavra. Na mesma proporção e medida, nenhuma ação ou ensino que possa distorcer a sã doutrina, e perverter a conduta dos crentes devem ser tolerados. O ensino e a influência maligna de Jezabel trazem juízo para ela e para os seus seguidores, sempre que a longanimidade de Deus é desprezada(Ap 2.21-23).

Assim como na igreja em Tiatira, fica também para nós a advertência e a promessa do Filho de Deus:

Digo, todavia, a vós outros, os demais de Tiatira, a tantos quantos não têm essa doutrina e que não conheceram, como eles dizem, as coisas profundas de Satanás: Outra carga não jogarei sobre vós; tão-somente conservai o que tendes, até que eu venha. Ao vencedor, que guardar até ao fim as minhas obras, eu lhe darei autoridade sobre as nações, e com cetro de ferro as regerá e as reduzirá a pedaços como se fossem objetos de barro; assim como também eu recebi de meu Pai, dar-lhe-ei ainda a estrela da manhã. Quem tem ouvidos, ouça o que o Espírito diz às igrejas. (Ap 2.24-29)



[1] KISTEMAKER, Simon. Apocalipse. São Paulo: Cultura Cristã, 2004, p. 184

[2] LAWSON, Steven J. As Sete Igrejas do Apocalipse. 5. ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2004, p. 129

[3] ARAÚJO, Isael. 100 mulheres que fizeram a história das Assembleias de Deus no Brasil. Rio de Janeiro: CPAD, 2011.

[4] Ibid., p. 39.

[5] Ibid., p. 79.

[6] Ibid., p. 155 e 156